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Dança de sonho
sab, 20/05/2006 - 17:52
Eu tive um sonho.
Sonhei que estava em um grande salão de baile. Por todo o salão, pessoas dançavam, casais se aproximavam, olhos bebiam outros olhos e corpos.
Num dado momento a pista esvaziou-se. A banda que tocava ritmos latinos preparou-se por um momento.
Da entrada do grande salão surgiu um casal. Lindamente caracterizados para algo que pelo burburinho do público deveria ser o ponto alto da noite.
Não me lembro muito bem se eu estava numa mesa, ou se flutuava pelo ambiente, como se é dado fazer nos sonhos, mas pude ver cada detalhe das roupas, dos corpos, até mesmo o perfume misturado ao cheiro das bebidas.
A banda tocou os primeiros acordes do que parecia ser um tango triste, um lamento, quase um choro de cordas, sopros e tambores. Pausadamente o bailarino conduziu sua parceira ao centro da pista, cadenciados, convidando todos os olhos para sua cena. Assim postados no centro, aguardando a deixa dos primeiros versos da canção, começaram a se mover leves, sinuosos e em tudo aparentemente apaixonados. Eram de uma beleza extrema; ele com olhos baixos, ela desviando o rosto de beijos enunciados num romance melódico. Prosseguiram nessa fuga de olhos até que seus corpos se separaram, no auge da dramaticidade da música. A bailarina saiu de sua prisão de braços e rodopiou por meio salão até deixar-se cair como um quadro, uma pintura pra ser admirada, no meio de um foco de luz que a fez finalmente mostrar-se por inteiro.
O escuro por todo o lado me fazia duvidar de que houvesse mundo ao redor daquela mulher. Só ela presente num pedaço de chão começava a delinear em gestos delicados uma sensualidade absurda. Só nos sonhos existe a perfeição que machuca aos olhos. Um corpo perfeito, lindo, plasticamente mágico, brincava com as luzes sem se dar conta que acorrentava olhares de desejo dos homens todos à sua volta. Foram três segundos, do foco até a hipnose. De repente me lembrei da música que voltou a tocar, não mais lamentos, mas uma batalha de paixão, sedução e desprezo, que uniu novamente o casal, uma salsa festiva, porém aterradora no seu enredo. Já não havia mais um casal de dançarinos, era ela somente que brilhava, morena, voluptuosa, com hálito de canela.
(Sinto o cheiro?).
Alheios ao encantamento coletivo, inclusive o meu, executavam seu número sem erros, também sem paixão nos olhares. Cada um dos homens enfileirados à borda da pista a olhava com desejo, admiração e sonho. Ela seguia perfeita, porém técnica. O corpo era a magia, a dança embora bela, não dizia o que se passava em seu peito.
A música evoluiu até um ponto de mudança, e num novo rodopio o casal se desfez, mas não houve mais a queda. De pé ela manteve o rosto erguido e fustigava a todos a sua volta.
E seus olhos pararam, no seu passeio de desdém, sobre um homem quase escondido entre mesas e cadeiras. Sentado, olhos fixos nela, como todos à sua volta. A ele os olhos da morena se renderam.
De volta à dança a bailarina ia e vinha por todo o salão procurando aqueles olhos, únicos em seu mundo que a faziam tremer. A cada pausa, a procura. Em giros e rodeios a bela mulher se perdia no desejo de rever o único rosto.
Quem era? Não sei mesmo. Nem sei se alguém mais percebeu a angústia que nascia entre aqueles olhares. Não sei se eu mesma pisava no chão ou me esparramava feito uma taça de vinho derrubada sobre a mesa. E eu sentia a paixão, sentia os tambores tocando dentro do meu corpo, um torpor misto de álcool e cigarros. Fumava sim, me lembro bem.
Quanto tempo durava aquela dança, eterna para mulher e para seu admirador contido? Quanto tempo aqueles olhos tiveram pra saber que existia um amor anunciado? Quantas voltas eu ainda seria capaz de suportar sem poder me aproximar...
Mas...
Nunca dancei tão lindo assim!
O que é isso?
Efeito do vinho excessivo, eu que dançava afinal.
Já não via a pista de dança, mergulhava nela vertiginosamente.
E dançava.
Era um amor profundo o que sentia, acho que chorava. Com a chegada do fim da música, os aplausos eram abafados pelo ruído do meu coração que se alegrava também com a liberdade de ir ao encontro daquele homem mistério.
Ele me viu, sei disso. Seus olhos me diziam que estava a minha espera. Como podia vê-los no escuro, tão longe, não sei. Mas havia tristeza no olhar.
Parada no meio da pista, vi o salão se esvaziar, vi as mesas abandonadas, vi um homem sentado, imóvel. Trêmula caminhei lentamente, mas a imagem eram quadros, que se interpunham sobre os olhos. A cada passo aquele rosto se fazia mais presente. A cada passo uma angústia maior me dizia pra não olhar mais. E mais um passo até finalmente estar perto o bastante. Estava quase podendo tocá-lo, e suas mãos me distraíram, quando fitei novamente o rosto, ele tinha partido.
Ao redor, o vazio e a sensação que presenciei e vivi um grande amor de uma única noite.
Não vi seu rosto. Mas desde então toda noite eu sonho com os olhos tristes que nunca vi.

