A Elite e as massas

A busca de um conceito de aristocracia que transcenda a babaquice
2009/06/13 America/Sao_Paulo
<!-- @page { margin: 2cm } P { margin-bottom: 0.21cm } -->Sh. Hilal Iskandar

 

Coriolano
As 'ideias' deste homem médio não são autenticamente ideias, nem sua posse é cultura. A ideia é um xeque-mate à verdade. Quem queira ter ideias necessita antes dispor-se a querer a verdade e aceitar as regras do jogo que ela imponha. Não vale falar de ideias ou opiniões onde não se admite uma instância que a regula, uma série de normas às quais na discussão cabe apelar. Estas normas são os princípios da cultura. Não me importa quais são. O que digo é que não há cultura onde não há normas. A que nossos próximos possam recorrer. Não há cultura onde não há princípios de legalidade civil a que apelar. Não há cultura onde não há acatamento de certas últimas posições intelectuais a que referir-se na disputa. Não há cultura quando as relações econômicas não são presididas por um regime de tráfico sob o qual possam amparar-se. Não há cultura onde as polêmicas estéticas não reconhecem a necessidade de justificar a obra de arte. “ (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas)<!--break-->

 

 

Um dos rótulos mais antigos que tentam me pregar desde meus primeiros tempos de micronacionalismo no já longinquo ano de 2001 é o elitista ou oligárquico. Não tenho nenhuma 'Síndrome de Coriolano' porque ao personagem romano imortalizado na peça de Shakespeare faltava o senso de amor pelo conjunto da Pátria e da humanidade, nele já estava arraiigado a sensação de desprezo pelo outro e defesa dos privilégios que tornou o conceito de elite pejorativo e sinal de decadência.

Considero-me realmente partidário de uma visão aristocrática do micronacionalismo, mas o aristocrático aqui não se refere de forma alguma a estes títulos todos que circulam por aí, nem mesmo à uma postura monárquica, mas ao sentido original da palavra que é o de “governo dos melhores”.

Melhores não no sentido pervertido que o termo adquiriu de privilegiados, mas daqueles que tem um compromisso maior, uma postura de maior dedicação e, sobretudo, que tem a disposição de dialogar e debater e busca não da vitória, mas da verdade. Até por isto é evidente que esta elite da qual eu falo deve ser circulante, deve ser capaz de incorporar os novos valores que surgem e deve ter a constante preocupação de ter as condições permanentes de aprendizado que permitam aos novos cidadãos ingressarem nela.

Ao mesmo tempo e pelos mesmos motivos acho sempre temerário a entrega de qualquer cargo público como forma de arregimentação de adeptos e clientes, muitas vezes sem dar ao ocupante nenhum tipo de instrução, sem tê-lo provado no dia a dia da micronação. Falo isto com a consciência tranquila por dirigir um ministério que tem um enorme número de funcionários, para uma pequena nação com os Açores, sabendo que a cada um deles é oferecida a atenção, a oportunidade de aprender, que não terão a sensação de ser jogados a uma tarefa desconhecida se te suporte, mas que a mesmo tempo não serão meros títeres, deverão tomar decisões,defender seus projetos, lutar com os demais pra conseguir formar sua própria equipe e adquirir suas próprias experiências para provar seu valor e, acima de tudo, prestar contas de seu trabalho a conjunto da população açoriana.

Creio que parte da decadência da lusofonia é devida a este processo de “invasão das massas” no mundo micro análoga ao que Ortega y Gasset detecta, á na longinqua década de 20 do século passado, no mundo macro. A massa não julga, lincha, não argumenta, berra, não se analisa, só se vangloria, não pensa, apenas repete chavões, mas acaba por dominar sobre a terra arrasada que deixa por conta do cansaço, do imobilismo que causa.

Um dos sinais mais claros desta tendência das massas é que em geral o que é criticado numa micronação não são as muitas coisas que não funcionam, mas justamente aquelas poucas que por dedicação especial de uma ou duas pessoas vai sendo tocada conforme o possível. Outra marca é o gosto pela quantidade em detrimento da qualidade, mais menagens mesmo que sejam bobagens, mais cidadãos mesmo que sejam paples e inativos e até em casos extremos que merecem outra citação de Ortega y Gasset a noção que se é melhor por ter dinheiro para comprar pronto aquilo que os cidadãos não tem condições de fazer:

 

Eu creio que esta surpresa, sempre renovada, ante o poder do dinheiro encerra uma porção de problemas curiosos ainda não aclarados. As épocas em que mais autenticamente e com mais dolentes gritos se lamentou esse poderio, são, entre si, muito diferentes. Entretanto, pode descobrir-se nelas uma nota comum: são sempre épocas de crise moral, tempos muito transitórios entre duas etapas. Os princípios sociais que regeram uma idade perderam seu vigor e ainda não amadureceram os que vão imperar na seguinte. Como? Será que o dinheiro não possui, a rigor, o poder que, deplorando-o, se lhe atribui e que seu influxo só é decisivo quando os demais poderes organizadores da sociedade se retiraram? Se assim fosse entenderíamos um pouco melhor essa estranha mescla de submissão e de asco que ante ele sente a humanidade, essa surpresa e essa insinuação perene de que o poder exercido não lhe corresponde. Pelo visto, não o deve ter porque não é seu, mas usurpado às outras forças ausentes.”( idem)

 

E mais adiante:

 

'Agora um homem chega a uma cidade e aos quatro dias pode ser o mais famoso e invejado habitante dela sem mais trabalho que passear ante as vitrinas, escolher os objetos melhores — o melhor automóvel, o melhor chapéu, o melhor isqueiro, etc. — e comprá-los. Caberia imaginar um autômato provido de um bolso em que metesse mecanicamente a mão e chegasse a ser o personagem mais ilustre da urbe.”(idem)

 

Os Açores já tiveram como slogan: “Onde todo cidadão é um nobre fidalgo”. Esta frase simples que aparenta ser contraditória na medida que uma distinção que abrange a todos não seria de fato uma distinção revela, pleo contrário, um ideal elevado de garantir todas as condições pra que cada um ascenda a esta condição de elite. Com a maior sinceridade e o menor bairrismo possível estou certo que existe um enorme esforço coletivo para que a frase não seja apenas um slogan vago, mas realmente uma política efetiva do Estado e da sociedade açoriana no sentido de garantir esta condição, não pela concessão de títulos vazios, mas na prática cotidiana da fidalguia, na valorização da condição nobre tal cm a define Ortega y Gasset, com a qual encerro este artigo:

 

“(...) Como agora a circunstância não o obriga, o eterno homem-massa, consequente com sua índole, deixa de apelar e sente-se soberano de sua vida. Contrariamente, o homem seleto ou excelente está constituído por uma íntima necessidade de apelar de si mesmo a uma norma além dele, superior a ele, a cujo serviço livremente se põe. Lembre-se de que, no início, distinguíamos o homem excelente do homem vulgar dizendo: que aquele é o que exige muito de si mesmo, e este, o que não exige nada, apenas contenta-se com o que é e está encantado consigo mesmo. Contra o que sói crer-se, é a criatura de seleção, e não a massa, quem vive em essencial servidão. Sua vida não lhe apraz se não a faz consistir em serviço a algo transcendente. Por isso não estima a necessidade de servir como uma opressão. Quando esta, por infelicidade, lhe falta, sente desassossego e inventa novas normas mais difíceis, mais exigentes, que a oprimam. Isto é a vida como disciplina — a vida nobre —. A nobreza define-se pela exigência, pelas obrigações, não pelos direitos.” (idem)

 

 

 

 

 

 

 

 

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